GERACAOC
Vida de Livro, por Andreia Moreira
| 2 de Março de 2010 | Actualizado: 27 de Abril de 2011 |
Sándor Márai escritor húngaro nascido em 1900 e que viveu imigrado metade da sua vida na Califórnia, foi o autor da narrativa desta quinzena. Publicada pela primeira vez em 1942, reuniu, desde então, consenso incontestável. Aclamada por diversas pessoas como uma verdadeira obra-prima, eis que a mim, pasmem-se, pessoa já vossa conhecida pela incapacidade, algo inata, de “dizer mal”, desgostou. Nada a apontar à prosa, de facto, sublime. Foi o enredo que me distanciou.
AS VELAS ARDEM ATÉ AO FIM - Sándor Márai
Sándor Márai escritor húngaro nascido em 1900 e que viveu imigrado metade da sua vida na Califórnia, foi o autor da narrativa desta quinzena. Publicada pela primeira vez em 1942, reuniu, desde então, consenso incontestável. Aclamada por diversas pessoas como uma verdadeira obra-prima, eis que a mim, pasmem-se, pessoa já vossa conhecida pela incapacidade, algo inata, de “dizer mal”, desgostou. Nada a apontar à prosa, de facto, sublime. Foi o enredo que me distanciou.
No cerne do imbróglio a tal figura geométrica que, não raras vezes, mutila relações. (Não diria “sempre”, nunca se sabe.) Dois grandes amigos, uma mulher, três ângulos. Adivinhem? Pois. O problema não estará na suposta traição de um dos amigos à amizade, ou da mulher ao amor. Para mim, o busílis da questão está no colossal silêncio que deixaram que se instalasse. Nas palavras que escolheram calar uma vida inteira, deixando-as, não obstante, a carcomê-los por dentro. Meus amigos, aquelas duas alminhas, Konrád e Henrik, estiveram 41 anos sem se ver, ou saber um do outro e, mais grave, sem se perdoarem. Krisztina, dos três a mais genuína - Opinião pessoal, portanto, altamente subjectiva - lá sucumbe à tristeza para não os aturar e eles, alheios, prosseguem nas suas vidas (fugas) movidas a ressentimento, até ao dia, repito, quarenta e um anos mais tarde, em que o confronto se torna possível.
Haverá deveras um esclarecimento? O sanar da(s) dúvida(s)? Não creio. Um frente a frente de mão dada à incapacidade para se verem ou ouvirem, embora um fale e o outro, aparentemente, escute. Passara tempo demais. Dois homens tão metidos neles, que se esqueceram que “o outro” não poderia ter sabido o que lhe ia dentro, à data, não tendo sido proferida a verdade de cada um. Naquela noite derradeira as velas ardem até ao fim. - E atenção que as velas demoram imenso a derreter. Informou-me uma amiga decoradora. - O tempo foi somente deles. Nem por isso se (re)encontraram. De que lhes serviu tão prolongada espera?
Diz perto do fim (da escuridão) Henrik: “E o que importa tudo aquilo que as pessoas pensam sobre isso? Nada. No fim não importa nada. Só importa o que fica nos nossos corações.”
“Que é que fica nos nossos corações?” – questiona Konrád.
Digo-vos: pouco. – Dirijo-me a eles, que tanto me abespinharam. - Muito pouco. Encheram o vazio da vossa vida de orgulho e rancor, de sentires demasiado medíocres para suprir a fome de um coração.
Poder-vos-ia ter mencionado muitos outros aspectos que esta obra encerra. – Agora já é convosco. - Em termos históricos, por exemplo. Sou, porém, mulher de arroubos e é para os sentimentos que se me foge, quase sempre, a atenção. Perdoem.
Leiam o livro e formem a vossa opinião. Mas depois digam-me se isto sou eu a fazer birra, ou se aqueles dois não mereciam umas lambadas para acordarem e não desperdiçarem a vidinha?
150 BPM – Não conseguia parar de ler o livro. A história colou-se a mim, provocando-me alguma irritabilidade, derivada à casmurrice das densas personagens. Sugerir a leitura.
copyright texto: Andreia Azevedo Moreira
Conhece a Andreia e todos os seus textos!
comentários