Paolo Giordano nasceu em Turim (1982) encontrando-se a fazer um doutoramento em física de partículas. Que terá a ciência que ver com as letras? Pois foi esta mesma pessoa que escreveu um primeiro romance vencedor de um importante galardão literário em Itália, o Strega, aquando da sua 62ª edição.
A SOLIDÃO DOS NÚMEROS PRIMOS - Paolo Giordano
Paolo Giordano nasceu em Turim (1982) encontrando-se a fazer um doutoramento em física de partículas. Que terá a ciência que ver com as letras? Pois foi esta mesma pessoa que escreveu um primeiro romance vencedor de um importante galardão literário em Itália, o Strega, aquando da sua 62ª edição.
Lerão como tão bem entrecruzou dois mundos, aparentemente, díspares. Não são raras as alusões às ciências exactas, ao longo da narrativa repleta daquelas inexactas respeitantes às emoções e aos afectos.
Os factos são-nos apresentados:
A) Alice Della Rocca é forçada pelo pai a frequentar aulas de esqui que abomina e tem um acidente que a mutila perenemente numa perna. Esse acontecimento determiná-la-á de forma indelével. Torna-se irascível e anoréctica.
B) Mattia Balossino é forçado pelos pais a encarar a presença constante da irmã “diferente”, a seu lado, como natural. Nenhum menino da sua idade lhes é sensível, pelo que são ambos ostracizados. Uma das mães obriga um deles a convidá-los para a sua festa de aniversário. Mattia decide deixar a irmã por umas horas num parque. As suficientes para se sentir “normal” na comemoração, sem ela. Michela desaparece sem deixar rasto e aquela criança far-se-á homem automutilando-se quotidianamente, como que para sentir a dor que, de tão desmedida, fora incapaz de sentir, pela atitude irreflectida que tivera naquele dia. Castiga-se sem piedade. É um rapaz circunspecto, que não transmite quaisquer emoções.
Entendemos, por conseguinte, porque vivem em solidão aberrante, ineptos para tocarem outros, ou para se deixarem tocar. Mesmo os pais, de cada um, ficaram de fora e não estranhamos a naturalidade com que o encontro entre ambos se revela o chegar a algum lado de seu e, melhor ainda, comum a outrem. Enfim a possibilidade de partilha entre dois números sem nada em comum, à partida, exceptuando o serem divisíveis apenas por um, ou por si mesmos. A cumplicidade em crescendo é inevitável, enquanto atravessam os dias crus da adolescência.
As relações são, amiúde, somatórios de mal-entendidos e estes dois não escaparão à sua dose de silêncio(s), de acções inacabadas, de afastamentos. Decorrerão nove anos de dormência em que se culpam mutuamente, fechados em si, por não viverem “o que deviam”, repelindo quem quer que quisesse, tão-só, amá-los.
“As escolhas fazem-se em poucos segundos e descontam-se no tempo que resta.” (Página 258).
Quis crer, findo o volume, que estes dois se aperceberam, em tempo útil, que se não pode viver culpando “um instante” pelo próprio infortúnio, desresponsabilizando-nos de tudo quanto se passe desde então.
Não adiar a vida esperando que alguém nos salve. Se caímos, levantemo-nos sozinhos pois números primos? Somos todos.
110 BPM – Gostei muito. Uma leitura viciante e uma estreia prometedora a não perder! Requisitá-lo na biblioteca mais próxima, lê-se bem em 3 tardes. Sugerir a leitura a um grande Amigo.
copyright texto e imagem: Andreia Azevedo Moreira
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